Luto e perdas: nem toda despedida acontece com a morte

Quando pensamos em luto, normalmente pensamos primeiro na morte de alguém importante.

Mas as experiências de perda podem aparecer de muitas outras formas.

O fim de um relacionamento, uma mudança profissional, a saída de uma cidade, uma transformação na própria identidade ou o encerramento de uma etapa importante também podem provocar sentimentos difíceis de compreender.

Algo termina — e nem sempre conseguimos simplesmente seguir em frente.

Existem perdas que não são imediatamente reconhecidas

Algumas perdas recebem reconhecimento social.

Outras acontecem de maneira muito mais silenciosa.

Uma pessoa pode mudar de emprego por escolha própria e, ainda assim, sentir falta da rotina anterior.

Pode encerrar um relacionamento que já não fazia sentido e continuar sofrendo pela vida que imaginava construir naquela relação.

Pode alcançar uma mudança desejada e descobrir que também existe sofrimento em deixar uma versão anterior da própria vida para trás.

Essas experiências não são contraditórias.

Uma decisão pode ter sido necessária e, ao mesmo tempo, produzir uma perda.

Continuar a rotina não significa que a perda foi elaborada

Muitas vezes, a vida exige que continuemos funcionando.

Existem compromissos, trabalho, família, mensagens para responder e decisões que precisam ser tomadas.

Por fora, a rotina continua.

Por dentro, porém, algo pode permanecer sem lugar.

É possível seguir trabalhando, conversando e cumprindo responsabilidades enquanto sentimentos de tristeza, angústia, vazio ou desorientação continuam presentes.

Nem sempre existe tempo ou espaço para elaborar aquilo que mudou.

Cada pessoa vive uma perda de maneira diferente

Não existe uma forma correta de atravessar um luto.

Também não existe um prazo universal para que uma experiência deixe de produzir sofrimento.

O significado de uma perda depende da relação que aquela pessoa tinha com aquilo que foi perdido.

Por isso, comparar o próprio processo com o de outras pessoas pode aumentar ainda mais a cobrança.

Frases como “eu já deveria ter superado” ou “não faz sentido ainda estar assim” podem aparecer justamente quando algo ainda precisa ser elaborado.

O que significa elaborar uma perda?

Elaborar não significa esquecer.

Também não significa deixar de sentir.

Na Psicanálise, falar sobre uma perda pode permitir que a pessoa se aproxime do lugar que aquela experiência ocupa em sua história.

Isso pode envolver falar sobre lembranças, expectativas, sentimentos contraditórios, situações que ficaram sem resposta ou mudanças que aconteceram depois daquela experiência.

Às vezes, o sofrimento não está apenas no que terminou, mas também naquilo que poderia ter acontecido e não acontecerá mais.

Quando uma mudança também exige um processo de elaboração

Nem toda perda acontece de maneira evidente.

Mudanças importantes também podem exigir um trabalho de elaboração:

  • encerramento de um relacionamento;

  • mudança de carreira;

  • aposentadoria;

  • saída dos filhos de casa;

  • mudanças corporais;

  • afastamento de amizades;

  • mudanças de cidade ou país;

  • transformação de projetos pessoais.

Em muitos desses momentos, a pessoa precisa construir uma nova maneira de se reconhecer diante da própria vida.

Não é preciso organizar tudo antes de falar

Algumas pessoas evitam iniciar uma análise porque acreditam que precisam saber explicar claramente o que estão sentindo.

Não precisam.

É possível chegar dizendo apenas que algo mudou e que ainda está difícil compreender o que aconteceu.

Na Psicanálise, a fala não precisa começar organizada.

O próprio processo pode ajudar a construir palavras para experiências que inicialmente parecem confusas.

Dar lugar ao que aconteceu

Vivemos em uma época em que existe uma forte expectativa de seguir rapidamente para a próxima etapa.

Mas nem todas as experiências acompanham a velocidade da rotina.

Algumas perdas precisam ser revisitadas, faladas e elaboradas para que possam ocupar outro lugar na história.

O processo analítico pode oferecer um espaço para esse trabalho, sem exigir uma maneira específica de sentir ou um prazo para deixar de sofrer.

Paloma Ametlla é psicóloga e atua com Psicanálise Lacaniana, acompanhando adultos em atendimentos on-line e presenciais em Copacabana, no Rio de Janeiro.

Se você está atravessando uma perda ou uma mudança importante, a análise pode ser um espaço para começar a falar sobre essa experiência.

PARA COMEÇAR

Talvez seja possível começar pelo que hoje ainda não encontrou lugar.

Se desejar iniciar um processo de análise, você pode entrar em contato para conversar sobre o atendimento.